Fiquei pensando se podia questionar naquele momento. O que aquela senhora disse, no alto de toda sua autoridade e de maneira tão banal, era questionável? Estou até agora pensando nisso, e não vai passar. Porque, porque não tenho como tirar a dúvida. A senhora disse que ela me amava. Que me amava muito. E ela é mãe, ela tem que saber da própria filha. Que eu devia saber o quanto a filha dela me amava. Meu deus, não sei de nada. Como posso deixar esse tipo de coisa passar? Me pegou desprevenida porque eu estava achando que era definitivo. Que não tinha como improvisar aproximação alguma, era tarde demais. Que eu e ela simplesmente não iríamos a diante. E que a gente era isso mesmo. Essa convivência constante e distanciada. Daí me vem a mãe dela assim e diz “ela te ama tanto” e depois “estou indo pro interior em dois dias”.

Não fiquei pensando no interior, mas em como seria possível. O amor. Desfilando assim sob meus olhos e eu nem perceber, era? Coisa tão cara sendo tratada desse jeito, de qualquer jeito. Ou vai que a mãe dela não sabe o que é amar, e ela nem disse nada. É só impressão de mãe que quer amigos pros filhos. Mas ela enganava a mãe, dizendo que me ama, ou a mim, sem me contar? Vai que ela não sabe que amar não pode ser inventar todas as coisas pra fazer, se esquecendo desse alguém por perto. Que amor é cuidadoso e vontade de estar junto um pouco, fazendo qualquer coisa. Não aquela falta de interesse, aqueles comentários vagos que só demonstram o quanto não se está prestando atenção na conversa.

Mas quem sou eu pra questionar a senhora. Tão madura, tão artista, vivida e sóbria. Com toda a razão sobre qualquer coisa. E ainda, nem interessada. Vou pra casa no interior, lá é tão típico, as pessoas de lá tão típicas, elas não falam mas são gentis. Mas o lugar é lindo, ainda mais agora que é verão. Eu também estou indo embora, mas não vou pro interior. Dentro de um tempo eu nunca mais vou voltar. E eu estava pensando que tudo bem. Que eu não tinha feito a maior amizade do mundo, que acontece. Morrendo de tristeza por dentro, mas pensando que tudo bem, acontece. Talvez eu poderia ter sido mais atraente, mais divertida. Um motivo melhor pra ficar em casa e conversar. Até agora, em que a mãe dela me vem e diz isso.

O que fazer, como voltar pra casa pra convivência de sempre sabendo que ela me ama? Como aceitar a pressa de manhã, o fechar das portas, se há amor? E ainda alguns dias até que eu finalmente parta. Pra sempre, não mais com magoa, mas dúvida. Que não vai ser tirada porque, porque eu simplesmente não tenho intimidade suficiente. E quando não se tem intimidade suficiente e se pergunta uma coisa profunda dessas, a resposta nunca é verdadeira. Que tem coisas que quando realmente se quer saber se precisa de coisas, disso, de intimidade. Que não há, como eu pensava que não havia amor antes. Mas preciso saber antes de ir embora. Porque vou ter que lembrar dessa época de algum jeito. Preciso saber como.

Mas talvez, talvez num dos dias em que ela sai mais tarde pra trabalhar eu possa levantar mais cedo. Já que nossos horários nunca bateram, e que de qualquer jeito ela nunca fez esforço pra tanto. Então eu posso levantar mais cedo fazer café enquanto ela prepara o almoço que vai levar pro trabalho. E dizer que a mãe dela estava muito divertida naquele dia e que tinha sido legal. E falar alguma coisa tipo que a minha mãe é assim ou assado. E ela seria vaga como sempre, dando as mesmas respostas. E sempre concordando pra não ter que se alongar. E eu olharia pra baixo, tentando parecer natural, banal como a mãe dela foi, e querendo dizer –mas você me ama mesmo?, acabar: então, acha que tua mãe te conhece bem?”

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